Seja Bem-Vindo!

ALUNOS POBRES PASSAM FOME SEM MERENDA ESCOLAR



Por causa da pandemia do novo coronavírus (Sars-CoV-2), escolas suspenderam as aulas presenciais e passaram a buscar formas alternativas de manter o processo de ensino-aprendizagem durante a quarentena: usam principalmente aplicativos e plataformas on-line. Não tendo aulas, também não tem merenda.

A estratégia adotada, no entanto, escancara a desigualdade e as dificuldades enfrentadas pelos estudantes pobres e professores de colégios públicos – acesso limitado à internet (de péssima qualidade), falta de computadores e de espaço em casa, problemas sociais, sobrecarga de trabalho docente e baixa escolaridade dos familiares.

Nesta reportagem, conheça a história de alunos, pais e professores que relatam os obstáculos da educação remota. Eles serão apresentados em quatro eixos:

Sem estrutura: problemas de acesso a computadores e de conexão com internet, falta de espaço apropriado para o estudo em casa;


A relação família-escola: dificuldade de professores entrarem em contato com os pais dos alunos, baixa escolaridade dos familiares e esgotamento emocional dos docentes, que ficam disponíveis 24h para tentar ajudar;

Os problemas sociais: falta de merenda da qual os alunos pobres dependem, inclusive ir à escola para se alimentar melhor, sem isso ocorre evasão escolar e maior exposição à violência (sexual, física ou psicológica);


O conteúdo: professores que não foram preparados para ministrar aulas online e dificuldade em adaptar conteúdos.

Segundo Mauricio Canuto, professor de didática no Instituto Singularidades (SP), o que está sendo feito pelas escolas não pode ser chamado de "educação à distância" – é um regime emergencial de ensino remoto.


"Não é uma situação estruturada: faltam equipamentos, não há acesso à internet, as pessoas não dominam as tecnologias digitais. A EAD pressupõe que todos estejam conectados e integrados", explica.

“Alguns jovens moram na roça e já enfrentam dificuldades para frequentar presencialmente a escola. Agora, então, sem sinal de telefone ou de internet, estão completamente afastados”, conta.

“Precisaríamos pensar em quem não tem acesso à internet ou só usa celular. 


Copiar conteúdo de uma tela de 4 polegadas é muito difícil, ainda mais para as crianças. Uma proposta seria preparar e entregar um material impresso”, sugere o professor.

"Nosso celular virou instrumento de trabalho. Não autorizei que usassem meu número para colocar em grupos de WhatsApp com alunos. Ninguém garante minha segurança e minha privacidade, não sei o que poderiam fazer com o meu contato”, afirma a professora.

“No último domingo, estava atendendo ligação às 3 da tarde. Eram alunos com dificuldades, com dúvidas. Eu atendi e dei as orientações, mas é complicado”, diz.

“É um desespero. Enquanto as escolas particulares têm estrutura, professores à disposição, a gente está à mercê. Minha filha precisa esperar que eu chegue em casa para poder usar meu celular”, afirma. “É um sistema excludente. Quero que meus filhos tenham estudo, consigam um bom desempenho no Enem [Exame Nacional do Ensino Médio]. Mas, para as classes mais baixas, está cada vez mais difícil”, completa.

*G1