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CIDADE DO BRASIL REGISTRA MAIS MORTES POR SUICÍDIO DO QUE POR CORONA VÍRUS


Ela só lembra que gritou. Foi um grito que tomou conta de tudo, abarcou todo o movimento ao redor, fez com que as pessoas e as coisas em torno dela desaparecessem. E então tudo escureceu. Ela estava indo em direção ao corpo dilacerado do filho para abraçá-lo uma última vez. 

O adolescente de 17 anos enviara uma mensagem pedindo desculpas por tirar a própria vida, e ela, parentes e amigos corriam pelas ruas de Altamira no Pará para tentar impedi-lo. 

Um tempo sem tempo, como ela lembra, uma corrida contra um relógio desconhecido. E então um corpo fez seu voo vertical para o chão. O adolescente havia se atirado de uma torre construída dentro de uma escola. Quando gritou, a mãe sabia que tinha perdido. O urro de dor emergiu de dentro dela para dar conta da escuridão que desde 9 de fevereiro a acompanha.

Até este momento —27 de abril— nenhuma pessoa morreu por covid-19 em Altamira, no Pará. 

Mas, de janeiro até hoje, 15 pessoas se suicidaram, segundo o Centro de Perícias Científicas Renato Chaves, da Secretaria de Segurança Pública do Governo do Estado do Pará: 9 deles eram jovens entre os 11 e os 19 anos, uma tinha 26 anos e os outros cinco variavam dos 32 aos 78 anos. 

A média no Brasil, segundo o DataSus, é de 6 suicídios a cada 100.000 habitantes. Altamira tem uma população estimada em 115.000. O número de mortes de 2020 coloca a cidade amazônica, em menos de quatro meses, com quase o triplo da média brasileira anual de suicídios —e já é igual ao total de 15 mortes autoinfligidas registradas no município durante o ano inteiro de 2019. Mesmo para um país que tem testemunhado o aumento do número de suicídios na juventude, as estatísticas de Altamira são alarmantes. Sem apoio do poder público, os movimentos sociais fazem um mutirão para impedir mais mortes. A pergunta que atravessa a população é: por quê? E por que agora?

O crescimento do número de suicídios de adolescentes é um fenômeno do Brasil dos últimos anos. Entre 2011 e 2018, houve um crescimento de 10% nas taxas de suicídio entre jovens de 15 a 29 anos no país. O maior aumento ocorreu entre 2016 e 2017, segundo o Perfil Epidemiológico divulgado em setembro de 2019 pelo Ministério da Saúde. Em todo o mundo, a morte por lesão autoinfligida ou autoprovocada intencionalmente, como o suicídio é chamado nas estatísticas, já se tornou a segunda causa de óbitos de jovens, perdendo apenas para acidentes de trânsito, como mostram os dados da Organização Mundial da Saúde.

As razões desse aumento estão sendo estudadas por profissionais da saúde mental. Ao investigar suicídios entre adolescentes que vivem nas grandes cidades brasileiras, pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) constataram que, entre 2006 e 2015, a taxa de suicídio entre jovens de 15 a 19 anos aumentou 24% nas seis maiores cidades brasileiras: Porto Alegre, Recife, Salvador, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro. Nos municípios do interior do país cresceu 13%. 

O aumento contrasta com a evolução dos índices de suicídios no resto do mundo, que caíram 17% no mesmo período. Os pesquisadores concluíram que indicadores socioeconômicos, especialmente o desemprego e a desigualdade social, podem estar associados a esse aumento.

Em Altamira, conforme pesquisadores ouvidos pelo EL PAÍS, o salto de suicídios de 2020 indica um aumento avassalador. Como comparação, no município paulista de Santana do Parnaíba, que detectou uma evolução preocupante no número de suicídios de adolescentes, houve duas mortes neste ano, nenhuma delas nesta faixa etária. Em Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, o suicídio de dois jovens na mesma semana, dentro de um shopping, ganhou o noticiário em março e provocou muito alarme na cidade. Com uma população sete vezes maior do que Altamira, Ribeirão Preto registrou cinco suicídios, de janeiro até hoje, de jovens com menos de 19 anos, contra nove mortes nesta faixa etária em Altamira. Ainda assim, também na cidade paulista os números apontam um aumento significativo, considerando que, em todo o ano de 2019, houve seis suicídios de adolescentes. 

Em Altamira, a violência é cotidiana. Não por acaso o município paraense foi classificado como de “vulnerabilidade muito alta”, conforme o Relatório do Índice de Vulnerabilidade Juvenil à Violência de 2017 (que usou como base dados de 2015), desenvolvido pela Secretaria Nacional de Juventude em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo o estudo, a vulnerabilidade à violência estaria ligada ao menor acesso à escola e ao mercado de trabalho, e à maior mortalidade por homicídios e acidentes de trânsito. Altamira ostenta o segundo maior índice de vulnerabilidade, entre jovens de 15 a 29 anos, nos municípios brasileiros com mais de 100.000 habitantes. Como comparação, o Rio de Janeiro, cidade associada à violência extrema, está na 134ª posição.
Contágio e prevenção

No passado, a imprensa não publicava casos de suicídio para evitar que pudessem influenciar outras pessoas a realizar o mesmo gesto. 

Desde a massificação da internet, essa medida de prevenção se tornou obsoleta: as pessoas deixam cartas de despedida nas redes sociais, há manuais de suicídio circulando, assim como fotografias e vídeos de crianças e adolescentes fazendo automutilação ou se suicidando, e até grupos transnacionais que auxiliam nas mortes nos subterrâneos da internet, chamados de “deep” ou “dark” web. Em 2017, o jogo Baleia Azul foi relacionado ao aumento de suicídios de adolescentes em todo o planeta. Séries de TV como a 13 Reasons Why (Netflix) ajudaram a romper o silêncio sobre algo que acontece e que está aumentando.

A realidade é que automutilação e suicídio são temas amplamente frequentados pelos adolescentes na internet —e raramente pelos melhores caminhos. Se a sociedade não debater o tema em todos os espaços, com conhecimento, responsabilidade e desejo de compreender, só restam mesmo os subterrâneos das redes e os programas e reportagens sensacionalistas que convertem o suicídio em espetáculo. 

“Falar” sobre o suicídio passou a ser uma medida de saúde pública. “É preciso falar, falar muito. É preciso debater o tema nas escolas, em todo o lugar. O suicídio é uma questão em que toda a sociedade precisa se envolver”, afirma a psiquiatra Maria Aparecida da Silva. Alarmada com o aumento do número de casos de automutilação e suicídio entre crianças e adolescentes, ela está construindo um trabalho de prevenção do suicídio junto com outros profissionais de saúde mental da rede pública de Santana do Parnaíba, município da região metropolitana de São Paulo.

Em Altamira, parte dos adolescentes que se suicidaram deixou uma carta de despedida no Facebook e enviou mensagens para familiares e amigos pelo WhatsApp. 

Essas mensagens podem ser consideradas como um disparador de contágio entre a população de jovens que têm as redes sociais e o Whatsapp como o principal meio de comunicação. Para evitar que ganhar nome e imagem em um veículo de circulação internacional possa incentivar jovens fragilizados a cometer uma violência contra si mesmos, nenhum dos mortos nem seus familiares e amigos serão identificados nesta reportagem.

O suicídio é um estigma tão forte em Altamira que uma das famílias abandonou tudo e foi tentar recomeçar a vida em outro lugar. “Fiquei mais de um mês sem sair de casa porque ou me olhavam como coitada ou como culpada. Somos para sempre a família do suicida”, conta uma mãe. Outra mulher foi proibida pelo empregador de dar qualquer depoimento sobre o suicídio de seu familiar. O suicídio como vergonha, como mancha, é uma ignorância que tem ajudado a impedir o debate e a construção das políticas públicas necessárias.

O imperativo de romper o silêncio se tornou explícito para as lideranças comunitárias de Altamira durante o enterro das vítimas. “Em todos os velórios, as pessoas chegavam pra abraçar e não falavam da nossa dor”, contou a tia de um dos adolescentes mortos. “Em vez disso, diziam: ‘Por favor, me ajude, meu filho tá assim, minha filha tá assim, há várias pessoas na minha família assim’. Ficou claro que há uma quantidade enorme de famílias que guardavam esse segredo na caixinha. Agora, quando viram que os jovens realmente podem morrer, estão pedindo socorro”.

SUS, Governos e responsabilidades

Os pedidos de ajuda, porém, esbarram nos muros de uma rede de saúde mental precária e totalmente insuficiente para atender a uma demanda que só cresce. 

A maioria dos jovens que se suicidaram já tinha apresentado sintomas de depressão e outros sofrimentos psíquicos, e alguns já se mutilavam e/ou tinham tentado suicídio antes. Profissionais do posto de saúde de um dos Reassentamentos Urbanos Coletivos (RUCs) contaram que chegam a atender a 30 casos de automutilação por dia.

Duas questões se repetem no depoimento dados pelos parentes das vítimas: 

1) a dificuldade de atendimento na rede de saúde mental (algumas famílias tiveram que fazer um enorme esforço para pagar assistência privada e outras desistiram por não ter condições financeiras); 

2) no caso dos que conseguiram assistência, houve resistência dos adolescente em se manter ou voltar ao tratamento.

A fragilidade da rede de saúde mental, não só em Altamira, como no restante do Brasil, é flagrante. O SUS, desde a irrupção da pandemia festejado por muitos que antes colaboraram com o seu sucateamento, tem sido enfraquecido nos últimos governos para beneficiar os planos de saúde e a privatização da assistência. É fácil compreender que será preciso retomar —e multiplicar— o investimento no SUS se o Estado quiser barrar o aumento do número de suicídios da juventude do país.

Em Altamira, cidade que sofreu uma mudança repentina em seu perfil, devido ao megaempreendimento da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, essa fragilidade se tornou dramática. Em 22 de abril, 66 profissionais de saúde do município assinaram uma carta pública às autoridades cobrando medidas concretas da Secretaria de Saúde de Altamira e sugerindo a “elaboração de um plano municipal de saúde mental, em parceria com as universidades e sociedade civil da região”:

“Na região de Altamira, onde sofremos com o impacto de grandes empreendimentos que aumentam o influxo migratório, as regiões de periferia se inflam sem recursos comunitários adequados, e a violência decorrente desses processos chegou a nos colocar no patamar de cidade mais violenta do Brasil. 
Observamos o impacto dessas questões na Saúde Mental de nossa população de diversas maneiras, e mesmo assim não temos transparência em relação ao uso de verbas como a dos royalties de Belo Monte aplicadas na Rede de Atenção Psicossocial. 
O aumento do acesso a recursos de saúde mental não acompanhou essas mudanças, e pelo contrário, tivemos uma piora desses recursos. (…) Essa sobreposição de questões tem se mostrado claramente no município de Altamira, com 11 casos de suicídio desde o início do ano (lembrando que a média nacional, segundo dados do Ministério da Saúde, é de 4 a 5 casos a cada 100 mil habitantes por ano, por isso já podemos considerar que, em menos de 4 meses, estamos em uma situação alarmante). Os profissionais de saúde estão muito impactados com o ocorrido, alguns criando iniciativas de maneira voluntária, junto com mobilizações de coletivos de juventude e movimentos sociais, porém a Secretaria de Saúde não tem se posicionado nem colocado medidas efetivas em relação a isso”.

Durante dois dias, EL PAÍS enviou emails e tentou contato por telefone e WhatsApp com assessores diretos da Secretaria Municipal de Saúde de Altamira, com o objetivo de obter uma entrevista com o secretário Renato Mengoni Júnior, para saber se existe um plano de enfrentamento ao suicídio no município e qual a posição diante das reivindicações de jovens e profissionais de Saúde. Emails e telefonemas não foram respondidos.